E essa tal sustentabilidade? (revista expressão casa - 2013)

Sustentabilidade, a palavra do momento... A presidenta diz que “o Brasil vai crescer de maneira sustentável”; o decorador diz: “buscamos diversas soluções sustentáveis nesse projeto”. Se quiser ser mais politicamente correto, adicione termos como ecológico ou até mesmo “green” e pronto: você já fez sua parte no grande movimento de recuperação do planeta! Mas afinal, qual o real significado dessa palavra? Ou melhor, como aplicar os seus conceitos de maneira eficiente?

Vejo que hoje o discurso arquitetônico gira em torno da tal palavra “sustentabilidade”, termo que mal se iniciou e já se encontra gasta com uma abordagem equivocada, do qual o mercado se apropriou para fins de consumo.  Eficiência energética está virando desculpa para se divulgar arquitetura ruim, com espaços de má qualidade. Faz-se propaganda enganosa de projetos medíocres como se fossem bons apenas por usarem equipamentos que contenham os famosos selos verdes.

Um bom exemplo disso está nos edifícios com suas fachadas totalmente envidraçadas, em um país com temperaturas que chegam a 40º recebendo insolação direta, criando assim estufas no lugar de ambientes agradáveis; onde se tem que usar vidros duplos e ar condicionado de baixo consumo para se ter um clima habitável. Edifícios esses que graças a esses equipamentos ganham os famosos selos verdes (que de verde só tem a cor da película dos vidros), e são divulgados como bons projetos.

Muito além de consumo de energia temos que lembrar do entulho que uma obra comum gera. Recentemente o arquiteto Lourenço Gimenes divulgou que a construção civil hoje, gera mais resíduos do que o lixo urbano por pessoa, sendo uma média de 500 quilos por habitante anualmente. Outra percepção distorcida são em relação aos custos adicionais investidos inicialmente para se ter uma construção sustentável. Se avaliarmos o custo total de um edifício em sua vida útil desde o projeto até sua demolição, chega a gerar até 80% de gastos com energia e agua (uso e operação).

Uma analogia simples explica essa questão de custos: Caminhonetes movidas a gasolina e camionetes movidas a diesel, a primeira tem um custo inicial mais baixo, mas que se torna alto a  longo prazo (vide  o preço da gasolina),  já o diesel tem um valor inicial superior, mas que “se paga” ao longo do seu tempo de uso. Por decorrência, e conhecimento disto, a grande maioria das pessoas investem na segunda opção, mas quando se trata de um edifício, temos em mente somente o custo inicial, nos esquecendo dos custos e benefícios futuros da edificação.

Para ter coerência, o termo teria que ser abordado de forma global, ou seja, um projeto além de ecologicamente correto tem que ser, economicamente viável, socialmente justo e culturalmente aceito.

Pensando dessa forma, a arquitetura deve primeiramente dialogar com o entorno, se adaptar à sua adversidade, ao meio, ao clima onde ela esteja inserida, pensando em edifícios de usos mistos, pois ninguém “só” trabalha, “só reside” ou “só” tem lazer. Deve-se promover espaços públicos e semi-públicos, áreas verdes para a cidade, buscando então, a integração social através da arquitetura, para que desta forma a edificação trabalhe efetivamente em prol da natureza e do humano de maneira mais harmônica.

Pensar numa arquitetura, não de forma isolada, mas sim de forma participativa da cidade, lembrando que sustentabilidade não se baseia somente em modelos de construção ecológicas divulgadas em peso na mídia, e sim partir do ato de projetar para criar um edifício que além de uma bela estética, cumpra não só com o seu fim, mas também com todos os deveres e responsabilidades que ele tem com a cidade.

Deveríamos, assim, trabalhar para que tal impacto seja o menor possível, se valendo de tecnologias ao nosso favor e condizente com o meio ao qual aquela construção se insere, fazendo com que esta seja uma pouco mais - nunca totalmente – autônoma... E sustentável por tabela.